Terça-feira, 15 de Novembro de 2005

Da Cedência

A retirada das tropas espanholas do Iraque, antes dos prazos previstos e rompendo o acordo com os Estados Unidos, embora cumprisse uma promessa eleitoral, foi fruto de uma decisão tomada no rescaldo dos atentados de Madrid, e constituiu, como resposta a esses mesmos atentados, uma cedência ao terrorismo. No entanto, infelizmente, existem outras formas de cedência, outras formas de encorajar o terror.

Num artigo no Público de 21 de Agosto -- também disponível no Project Syndicate--, Álvaro Vasconcelhos aborda as diferenças entre os métodos democráticos e autoritários na luta contra o terrorismo. Para além de defender a via democrática quando escreve que "as democracias não só são mais eficazes politicamente, como o são também no domínio da acção dos serviços secretos.", chama também a atenção para os perigos de uma luta cega contra o extremismo: "A resposta ao crime de Londres obriga-nos a reafirmar o primado do Direito sobre o arbitário, a preservar os valores da diversidade..."

Se, por um lado, é preocupante a forma como parte da opinião pública parece recusar-se a admitir que a natureza do terrorismo global não está necessariamente ligada à miséria e à pobreza em determinadas regiões do mundo, mas sim a uma concepção do mundo que sugere a destruição do ocidente, sendo que os extremistas estão dispostos a dar a vida, não pelo fim da guerra no Médio Oriente, mas pela destruição de um civilização que odeiam, não deixa também de provocar alguma inquietação a forma como as correntes de opinião mais pragmáticas promovem uma luta cega e indiscriminada contra esse terrorismo apocalíptico.

Pacheco Pereira escrevia no Abrupto: "Acima de tudo, não compreendo porque razão um terrorismo apocalíptico, que tenta por todos os meios ter as armas mais pesadas, nucleares, químicas e bacteriológicas, para garantir o seu Armagedão sacrificial, (...) haja os meios para isso, não tem que ser combatido com tudo o que tenho à mão: tropas, polícias, agentes de informações, à dentada diria um velho inglês da Home Guard (...). Ou nós ou eles." Não tenho dúvidas quanto à necessidade da luta, mas quer isso dizer que podemos utilizar todos os meios, sejam eles quais forem?

Medidas como o Patriot Act, ou mesmo aquelas que se anunciam no espaço da União Europeia, que vêem pôr em causa algumas das liberdades que nos dá o regime democrático -- aquele que os assassinos tanto anseiam ver extinto --, poderão ser levadas até que ponto? Qual o limite das restrições às quais a democracia deve ser sujeita? Quando atingirmos esse limite, se o atingirmos, saberemos então que cedemos aos extremistas? Somos nós ou eles, provavelmente. E, provavelmente, chegado o dia, sentir-nos-emos obrigados a tomar essa decisão. Mas então cederemos... Estamos dispostos a sacrificarmo-nos pela democracia, ou a sacrificar a democracia por nós?

1 comentários:

Mendes Ferreira disse...

QUERO ACREDITAR E MT QUE SEJAMOS NÓS A LUTAR POR ELA. A DEMOCRACIA.

ABRAÇO. SOLIDÁRIO.

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