Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2006

Caminho para Belém (III), Mário Soares

Aos oitenta e um anos, Mário Soares surpreendeu os portugueses ao candidatar-se a Presidente da República. Mesmo depois de de ter dito "basta", o instinto de animal político falou mais alto. Com Cavaco sozinho à direita e Alegre a agitar as águas à esquerda, o ambiente não se afigurou nunca fácil.

Justifica a candidatura com o momento de crise que se vive e apresenta-se como capaz de "unir os portugueses". A compreensão dos poderes presidenciais, através da experiência adquirida, é um dos trunfos que mais utiliza. É igual a si próprio quando dá a sua opinião acerca dos assuntos mais fracturantes. Não tem problemas em falar da globalização, no modelo social europeu ou na luta contra o terrorismo. A necessidade de bipolarização da campanha levou-o, e bem, a identificar as diferenças para com Cavaco Silva, e é aí que ganha lugar a tese humanista vs economista, que embora redutora, é directa e serve o seu propósito: marcar a diferença.

Na televisão começou por mostrar que a idade não lhe tinha tirado a habilidade perante as câmaras. Os debates com Louçã e Jerónimo permitiram-lhe mostrar algum distanciamento em relação às ideias mais radicais que a ele têm sido associadas nos últimos tempos. No debate com Cavaco, a dureza dos argumentos usados, de forma exaustiva, revelou alguma deterioração da sua capacidade de controlo na argumentação, não tão denunciada até então. O erro da sua campanha é essencialmente um erro de forma, pois o discurso duro e agressivo contra Cavaco não o beneficia.

Mas Soares ressuscita uma forma de fazer política que nos últimos anos -- nos quais temos contactado maioritariamente com políticos de segunda, muito bem educados, por sinal -- não se fazia sentir. É um discurso que remonta à década de oitenta, no tempo em que a política concentrava uma boa parte da elite nacional, resultado da filtragem própria das revoluções. Não fiquei indiferente quando, no início das alegações finais de um debate, proferiu aproximando-se da câmara: "Portugueses!"; e viajei no tempo uns quinze anos.

A meio da campanha, as sondagens não lhe são favoráveis e pressagiam a derrota no dia 22. Talvez Soares esteja finalmente fora do seu tempo. Talvez o país já não o perceba ou não compreenda a sua candidatura. Ou talvez não haja muito para compreender, a não ser o inevitável grande final, mas nunca humilhante, de um dos maiores políticos portugueses. Até nisso, como escreve Pulido Valente, "sucede aos melhores".

2 comentários:

Rui Afonso disse...

Não me parece que a pesada derrota que vai sofrer seja um grande final. Soares não soube parar quando o devia ter feito. Se a ida para o Parlamento Europeu já tinha sido escusada, esta candidatura é, de todo, despropositada. Tudo tem o seu tempo e Soares já teve o seu. Precisamente, como bem referes, há 20 anos atrás. Desfaz-se, assim, o mito e, com a derrota, o ser humano envelhecido e cheio de defeitos aparecerá aos olhos de todos. Porque quis terminar assim...

Ricardo Alves disse...

Julgo que o final dos verdadeiros líderes é inevitavelmente grande. Eles não se escondem. Por responsabilidade, instinto ou soberda, estão presentes no cair do pano. E isso destingue-os.

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